Arthur Campos da Paz e a história da mamografia no Brasil
Atualizado: 21 de out.
A história da mamografia no Brasil não envolve apenas máquinas e avanços tecnológicos. Ela também é marcada por pessoas que ajudaram a transformar a prevenção do câncer feminino em uma preocupação de saúde pública.
Entre esses nomes está o médico Arthur Fernandes Campos da Paz Filho, ginecologista que teve participação importante na criação e consolidação do Centro de Pesquisas Luiza Gomes de Lemos, no Rio de Janeiro, instituição dedicada à prevenção e à detecção precoce do câncer ginecológico e de mama.
Mas quem foi Arthur Campos da Paz? E qual foi, de fato, sua relação com a mamografia?
A resposta passa pela história da Fundação das Pioneiras Sociais, por Sarah Kubitschek, pelo governo de Juscelino Kubitschek e por uma época em que os recursos para detectar precocemente o câncer de mama ainda estavam começando a se desenvolver no país.

Quem foi Arthur Campos da Paz?
Arthur Fernandes Campos da Paz Filho
nasceu no Rio de Janeiro, em 1914, e morreu em 1987. Foi médico ginecologista, diretor do Centro de Pesquisas Luiza Gomes de Lemos, presidente da Fundação das Pioneiras Sociais e membro honorário da Academia Nacional de Medicina.
Sua trajetória esteve especialmente ligada à saúde da mulher e à prevenção do câncer feminino.
Na década de 1950, sua atuação se aproximou da família do então presidente Juscelino Kubitschek. A história ganhou um capítulo importante após o diagnóstico de câncer ginecológico de Luiza Gomes de Lemos, mãe de Sarah Kubitschek.
Depois da morte de Luiza, Juscelino Kubitschek solicitou a Campos da Paz um planejamento para a construção de um hospital de cancerologia no Rio de Janeiro.
A proposta do médico foi além da criação de um espaço destinado apenas ao tratamento.
Ele sugeriu a criação de um centro de pesquisas dedicado à prevenção do câncer feminino, com atenção à detecção precoce. A instituição foi inaugurada em 1957 como uma unidade da Fundação das Pioneiras Sociais.
O que foi o Centro de Pesquisas Luiza Gomes de Lemos?
O Centro de Pesquisas Luiza Gomes de Lemos nasceu com uma proposta que, para a época, era bastante ampla: trabalhar com prevenção e detecção precoce de doenças que atingiam as mulheres.
A instituição realizava atendimento ambulatorial e desenvolvia ações voltadas ao câncer ginecológico e ao câncer de mama.
Um dos aspectos marcantes desse trabalho era a chamada busca ativa. A equipe procurava alcançar mulheres que tinham dificuldade de acesso à informação e aos serviços de saúde, levando-as até a instituição para a realização de exames preventivos.
Essa preocupação ajuda a entender o contexto no qual a mamografia passou a ocupar espaço na medicina brasileira.
O objetivo não era simplesmente adquirir uma nova máquina. Era criar condições para que os recursos disponíveis fossem utilizados dentro de uma estratégia de prevenção e diagnóstico precoce.
Qual foi a relação de Arthur Campos da Paz com a mamografia?
É aqui que precisamos separar alguns acontecimentos históricos.
Arthur Campos da Paz não inventou a mamografia.
Também não é historicamente seguro afirmar que ele tenha sido sozinho o responsável pela chegada da primeira mamografia ao Brasil.
Uma pesquisa publicada na revista Saúde e Sociedade aponta que o primeiro mamógrafo foi importado para o Brasil por Sampaio Góes, em 1970. O equipamento foi adquirido da empresa francesa Compagnie Générale de Radiologie (CGR).
Entretanto, a história do Centro de Pesquisas Luiza Gomes de Lemos mostra uma participação importante de Campos da Paz na implantação da tecnologia dentro de uma estrutura dedicada à saúde da mulher.
Em 1972, durante sua gestão, foi inaugurada a Unidade de Senografia do Centro de Pesquisas Luiza Gomes de Lemos. O serviço utilizava um equipamento Senograph, da CGR, destinado ao diagnóstico precoce do câncer de mama.
Portanto, a relação de Arthur Campos da Paz com a mamografia está principalmente ligada à estruturação de um serviço institucional de prevenção e diagnóstico precoce do câncer de mama, dentro de uma organização que buscava ampliar o acesso das mulheres aos cuidados de saúde.
Como a mamografia começou a ganhar espaço no Brasil?

A década de 1970 representou um período importante para a evolução da mamografia no país.
Naquele momento, novas tecnologias de imagem começavam a ser utilizadas para procurar alterações mamárias menores, e estudos internacionais aumentavam o interesse pela utilização da mamografia na detecção precoce do câncer de mama.
No Centro de Pesquisas Luiza Gomes de Lemos, o trabalho ganhou dimensão significativa.
Segundo registros históricos do INCA, em 1972 foi criada a Unidade de Senografia e, posteriormente, novos equipamentos foram incorporados ao serviço. O centro também desenvolveu estudos e atividades relacionadas à mastologia e à mamografia.
Uma pesquisa histórica publicada na Saúde e Sociedade registra ainda que, em 1974, o centro adquiriu um novo mamógrafo e um aparelho de termografia. Em aproximadamente 24 meses, cerca de 12 mil mulheres haviam realizado exames mamográficos na instituição.
Esses números ajudam a mostrar que o trabalho não ficou restrito à utilização de um equipamento dentro de um consultório.
Havia uma tentativa de ampliar o acesso e levar informação e exames para diferentes comunidades.
Mamografia e prevenção: uma mudança de perspectiva
A importância histórica desse período está também na mudança de mentalidade em relação ao câncer de mama.
Durante muito tempo, o diagnóstico dependia principalmente da percepção de alterações já existentes e da avaliação clínica.
A evolução dos métodos de imagem permitiu investigar alterações menores e contribuiu para ampliar as possibilidades de detecção da doença.
Isso não significa que a mamografia tenha substituído a consulta médica ou o exame clínico.
A mamografia é uma ferramenta dentro de um processo maior de cuidado. A indicação e a interpretação do exame devem considerar idade, sintomas, histórico familiar, fatores de risco e outras informações clínicas.
Atualmente, o próprio INCA diferencia diagnóstico precoce e rastreamento. O diagnóstico precoce está relacionado à investigação de pessoas que apresentam sinais ou sintomas suspeitos. Já o rastreamento utiliza exames em pessoas sem sinais ou sintomas, dentro de uma população e periodicidade definidas pelas recomendações de saúde.
O legado de Arthur Campos da Paz vai além da mamografia
Quando se fala na contribuição de Arthur Campos da Paz, portanto, é importante não reduzir sua trajetória à chegada de uma máquina.
Seu trabalho esteve associado a uma proposta mais ampla de organização da prevenção do câncer feminino.
O Centro de Pesquisas Luiza Gomes de Lemos foi concebido para atuar na prevenção e na detecção precoce do câncer ginecológico e da mama, além de desenvolver ações de busca ativa e educação em saúde.
O INCA também registra que, durante a liderança de Campos da Paz, o centro se tornou uma referência na prevenção e no diagnóstico precoce das neoplasias ginecológicas e mamárias.
Esse legado ajuda a compreender uma ideia que continua atual: diagnosticar uma doença mais cedo pode ampliar as possibilidades de tratamento e contribuir para melhores resultados, desde que exista acesso adequado à investigação e ao tratamento.
O que mudou na mamografia desde aquela época?
A mamografia passou por grandes transformações tecnológicas desde os primeiros equipamentos utilizados no Brasil.
Os aparelhos atuais oferecem recursos de aquisição e processamento de imagens muito diferentes daqueles disponíveis nas décadas de 1970 e 1980.
A evolução tecnológica veio acompanhada do desenvolvimento da mastologia, da radiologia e dos programas de controle de qualidade.
Hoje, a mamografia pode ser utilizada tanto na investigação de alterações mamárias quanto no rastreamento, conforme a situação clínica e as recomendações aplicáveis.
Mas uma tecnologia mais moderna não elimina a necessidade de avaliação médica.
O exame deve ser interpretado dentro do contexto da paciente, e um resultado alterado não significa automaticamente câncer. Da mesma forma, um resultado sem alterações não elimina a necessidade de procurar avaliação médica diante de sintomas persistentes ou suspeitos.
Quando a mamografia pode ser indicada?
A indicação depende do contexto. No rastreamento populacional pelo SUS, o Ministério da Saúde orienta atualmente a realização de mamografia em mulheres de 50 a 74 anos, a cada dois anos, como estratégia baseada em evidências para redução da mortalidade por câncer de mama.
Já mulheres que apresentam sintomas ou alterações suspeitas podem precisar de investigação diagnóstica, independentemente da lógica do rastreamento populacional.
Por isso, não existe uma única regra que possa ser aplicada da mesma maneira a todas as mulheres.
Histórico familiar, sintomas, idade, exames anteriores e outros fatores podem modificar a conduta.
Recebeu uma solicitação médica para realizar mamografia ou ficou com dúvidas sobre qual exame foi indicado? A equipe da PRIMA Imagem pode orientar sobre informações do atendimento e preparo do exame, conforme os serviços disponíveis.
Um resumo simples para guardar:
Arthur Campos da Paz foi um médico ginecologista que teve papel importante na história da prevenção do câncer feminino no Brasil. Ele esteve à frente do Centro de Pesquisas Luiza Gomes de Lemos e da Fundação das Pioneiras Sociais, instituições que desenvolveram ações de prevenção e detecção precoce do câncer ginecológico e de mama.
A mamografia começou a ganhar espaço no Brasil durante um período de expansão das tecnologias de diagnóstico por imagem. Embora fontes históricas apontem Sampaio Góes como responsável pela importação do primeiro mamógrafo em 1970, o Centro de Pesquisas Luiza Gomes de Lemos adquiriu seu próprio equipamento em 1972 e desenvolveu importante atividade relacionada à detecção precoce do câncer de mama.
A história mostra que tecnologia, prevenção, informação e acesso aos serviços de saúde caminham juntos.
E, atualmente, a mamografia continua sendo uma ferramenta importante no cuidado com a saúde das mamas, dentro das indicações e recomendações médicas adequadas.
Conclusão
Conhecer a história da mamografia é também conhecer parte da história da prevenção do câncer de mama no Brasil.
Arthur Campos da Paz esteve ligado a um período em que a prevenção começou a ganhar uma dimensão mais organizada, com a criação de instituições voltadas à saúde da mulher, a busca ativa de pacientes e a incorporação de novas tecnologias de diagnóstico.
Sua trajetória não deve ser resumida à ideia de que ele teria criado ou inventado a mamografia. O que os registros históricos mostram é sua participação na construção de uma estrutura de prevenção e diagnóstico precoce do câncer feminino e na implantação de serviços que passaram a utilizar a mamografia como recurso para a avaliação das mamas.
Décadas depois, os equipamentos e os conhecimentos médicos evoluíram muito. Mas permanece uma ideia fundamental: a informação e o acesso adequado aos cuidados de saúde podem fazer parte de uma história de prevenção que continua sendo construída todos os dias.
Isenção de responsabilidade médica
Este conteúdo possui finalidade exclusivamente informativa e educativa e não substitui consulta médica, diagnóstico individualizado ou orientação de profissional de saúde habilitado.
A necessidade de exames depende dos sintomas, histórico clínico, exame físico, idade, fatores de risco e avaliação médica.
Em caso de sintomas ou alterações mamárias persistentes ou suspeitas, procure avaliação de um profissional de saúde.
Fontes para consulta do leitor
Instituto Nacional de Câncer (INCA) — Detecção precoce do câncer de mama.
Instituto Nacional de Câncer (INCA) — INCA 85 anos: história da instituição, com registro da Seção de Mastologia do Centro de Ginecologia Luiza Gomes de Lemos.
Fiocruz — Casa de Oswaldo Cruz / Base Arch — Registro biográfico de Arthur Fernandes Campos da Paz Filho.
Fiocruz — Observatório História e Saúde — Fundação das Pioneiras Sociais e Centro de Pesquisas Luiza Gomes de Lemos.
Saúde e Sociedade / SciELO — Câncer de mama no Brasil: medicina e saúde pública no século XX.
Ministério da Saúde / INCA — Orientações sobre rastreamento mamográfico no SUS.

Responsável pela produção e organização de conteúdos informativos sobre saúde e diagnóstico por imagem.
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